Sobre liberdade e livros, um caso curioso

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Liberdade

O que significa liberdade? Charles de Montesquieu tem a sua própria definição: "A liberdade consiste em fazer tudo o que se deve querer e em jamais ser coagido a fazer o que não se deve querer". A Internet trouxe um grande ganho de liberdade para as pessoas, como alguns costumam dizer, "não há liberdade sem conhecimento", e uma das principais propostas da web é tornar disponível a maior quantidade de conhecimento possível para a maior quantidade de pessoas que se consiga alcançar com a tecnologia.

Mas parece que alguns governos e grandes empresas ainda não entenderam isso, querem proibir downloads, pesquisas e em alguns casos partem para a censura explícita e descabida. No entanto, no meio desse mar de ignorância, aparece um caso que me fez ainda ter esperança na liberdade de expressão, e algo que pode fazer as pessoas pensarem um pouco sobre como tratamos a liberdade alheia.

Mark Pilgrim é um conhecido programador e também é escritor. Sua maior obra é o livro Dive Into Python. Esse livro, sobre a linguagem de programação Python, já vendeu muitas cópias no mundo inteiro e inclusive ganhou uma versão em português com tradução de qualidade duvidosa chamada Megulhando no Python, mas isso não vem ao caso.

O interessante dessa história é que ontem Mark relatou em seu blog que outra pessoa simplesmente pegou o seu livro e começou a distribuí-lo por conta própria sem a autorização de sua editora, a Apress. Ele conta que isso causou um alvoroço dentro da editora e no meio da confusão, os executivos descobriram que juridicamente não poderiam fazer nada contra isso. O que acontece é que o livro foi publicado sob uma licença chamada GNU Free Documentation License que dá o direito a qualquer pessoa de publicar e distribuir o livro, bastando para isso, ter os recursos para fazê-lo, haja visto que não é tarefa trivial distribuir um livro, seja ele qual for. Inclusive o livro em questão está disponível na íntegra online para quem quiser acessar e ler. Assim sendo, os executivos da empresa nada podiam fazer, pois não tinham recursos legais para isso.

O que mais me chamou a atenção, foi a opinião do próprio Mark sobre o assunto, em tese ele deveria se sentir mais ofendido com essa situação, como é praxe vermos acontecer em casos como esse, mas ele mesmo escreveu o seguinte. > I enjoy working with publishers because it makes me a better writer. But I don’t write for money; I write for > love (or passion, or whatever you want to call it). I choose open content licenses because this is the way I want > the world to work, and the only way to change the world is to change yourself first.

Ao invés de censura, frustração, palavras duras ou qualquer outra coisa, vemos aqui uma pessoa contente por sua obra ser reconhecida e estar aberta a todas as pessoas. Ele conclui o seu ponto de vista com as palavras abaixo. > So I am grateful for this anonymous soul who woke up one day and said to herself, “You know what I should do today? > I should try to sell copies of that Free book that Pilgrim wrote.” Grateful, because it afforded me the opportunity > to remind myself why I chose a Free license in the first place. My Zen teacher once told me that, when people try to > do you harm, you should thank them for giving you the opportunity to forgive them. In this case it’s even simpler, > because there’s nothing to forgive, just explain. She’s redistributing the work that I explicitly made > redistributable. She’s kind of the point.

Obrigado Mark, quem sabe um dia faremos o mundo entender que as coisas mudaram, que o conceito de liberdade está cada vez mais amplo e que todos precisam ter acesso ao conhecimento, afinal de contas, liberdade é conhecimento, não é mesmo?

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